Quatro e meia da manhã. Cheguei do Hermes Bar onde fui com dois casais de amigos muitos simpáticos, que inclusive me apresentaram pessoas novas, músicos e poetas e afins, com os quais debatemos sobre Jazz, Blues, Samba e até, Beto Barbosa e os caminhos da Lambada. Estava bêbado, como de costume, ou como havia me acostumado a estar. Larguei a jaqueta no chão da sala; os sapatos no corredor que leva ao banheiro; me olhei no espelho. Havia sinais de uma maturidade que eu havia sido forçado a ter. Havia olheiras; olhos baixos, sem alegria. A imagem no espelho me disse que eu havia me perdido em mim mesmo, em mim no mundo que eu criei. Mandei a imagem à merda e fui para o meu quarto, ainda tonto de tanto whisky. Na parede algumas fotos em preto e branco me fizeram lembrar de coisas que eu já não me lembrava mais. Fiz questão de arrancá-las de lá. Por amor. Por amor a mim mesmo. Guardei-as numa caixa, junto com mais um monte de quinquilharias que fui recolhendo pelo quarto: mais fotos, cartas, objetos, coisas e mais coisas que não faziam mais parte do que eu estava vivendo. Lacrei a caixa com fita adesiva, coloquei um aviso de "FRÁGIL", e arremessei pela janela. Do vigésimo quinto andar vi a caixa espatifar no asfalto e deixar voar tudo o que eu havia guardado por tantos anos e que não fazia mais sentido pra mim. O vento bateu e levou embora um monte de lembranças... um monte de memórias... um monte de saudades...
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Data de criação : 08/10/22 Última atualização : 09/05/21 14:19 / 28 Artigos publicados